Texto de apoio: Leia o texto para responder às questões de 01 a 08 :
Leia o texto para responder às questões de 01 a 08 :
Domingo do calulu Há regressos assim. Sem sair do lugar, me dou por regressado a Benguela 1 através da cozinha, juntando no refogado restos de uma identidade adormecida. A minha cultura! Afinal, de que sou feito?, ainda ontem me perguntaram; deve ser por causa do sotaque, ou da falta dele. Pode vos parecer disparatado e absurdo, mas a verdade é que me questionam várias vezes sobre a minha angolanidade: há quanto tempo não vais a Angola?, qual foi a última vez que lá foste? A receita nunca me foi ensinada, por isso vou acrescentando, improvisando, tal como o cozinhador João Carlos Silva, tal qual um Avillez, manuseando a faca com a mestria de um samurai. Tenho o tacho de boca larga, inoxidável e um tanto reluzente demais, comparando com aquelas velhas panelas pretas, calcinadas de tanto irem ao fogo, e que passavam de geração em geração, encerrando em si histórias de refeições memoráveis que duravam tardes inteiras. Começo por refogar metade de uma cebola picada em óleo de palma, depois o tomate maduro cortado aos cubos, as postas de corvina seca e fresca, as beringelas aos quadrados, a folha de louro. Deixo repousar sobre o lume brando alguns instantes antes de colocar o resto da cebola e do tomate, assim como os espinafres, que, apesar de aparecerem a substituir as folhas de rama (impossíveis de encontrar fora de Angola), ainda assim quebram o galho. Já cheira a calulu 2 , já consigo viajar até Benguela. Às vezes, pergunto-me como consigo resistir à distância, eu que nem sou de me entregar à saudade, que vivo bem sem o funge 3 , a bandeira gastronômica dos angolanos. Não sei responder e foi preciso implorarem-me para cozinhar algo tipicamente angolano para revisitar velhas receitas familiares que agora, tal como um álbum de fotografias, me trazem lugares, rostos, conversas que julgava perdidas. (Kalaf Epalanga. Minha pátria é a língua pretuguesa :
Crônicas, 218. Adaptado) Vocabulário:
1 Benguela: província de Angola, na África. 2 calulu: espécie de ensopado de peixe preparado com quiabo, abóbora, beringela, temperos e azeite de dendê. 3 funge: pirão de farinha de mandioca ou milho com um caldo.
Domingo do calulu Há regressos assim. Sem sair do lugar, me dou por regressado a Benguela 1 através da cozinha, juntando no refogado restos de uma identidade adormecida. A minha cultura! Afinal, de que sou feito?, ainda ontem me perguntaram; deve ser por causa do sotaque, ou da falta dele. Pode vos parecer disparatado e absurdo, mas a verdade é que me questionam várias vezes sobre a minha angolanidade: há quanto tempo não vais a Angola?, qual foi a última vez que lá foste? A receita nunca me foi ensinada, por isso vou acrescentando, improvisando, tal como o cozinhador João Carlos Silva, tal qual um Avillez, manuseando a faca com a mestria de um samurai. Tenho o tacho de boca larga, inoxidável e um tanto reluzente demais, comparando com aquelas velhas panelas pretas, calcinadas de tanto irem ao fogo, e que passavam de geração em geração, encerrando em si histórias de refeições memoráveis que duravam tardes inteiras. Começo por refogar metade de uma cebola picada em óleo de palma, depois o tomate maduro cortado aos cubos, as postas de corvina seca e fresca, as beringelas aos quadrados, a folha de louro. Deixo repousar sobre o lume brando alguns instantes antes de colocar o resto da cebola e do tomate, assim como os espinafres, que, apesar de aparecerem a substituir as folhas de rama (impossíveis de encontrar fora de Angola), ainda assim quebram o galho. Já cheira a calulu 2 , já consigo viajar até Benguela. Às vezes, pergunto-me como consigo resistir à distância, eu que nem sou de me entregar à saudade, que vivo bem sem o funge 3 , a bandeira gastronômica dos angolanos. Não sei responder e foi preciso implorarem-me para cozinhar algo tipicamente angolano para revisitar velhas receitas familiares que agora, tal como um álbum de fotografias, me trazem lugares, rostos, conversas que julgava perdidas. (Kalaf Epalanga. Minha pátria é a língua pretuguesa :
Crônicas, 218. Adaptado) Vocabulário:
1 Benguela: província de Angola, na África. 2 calulu: espécie de ensopado de peixe preparado com quiabo, abóbora, beringela, temperos e azeite de dendê. 3 funge: pirão de farinha de mandioca ou milho com um caldo.
Para o cronista, a preparação do calulu desencadeou
- Aa sua história adormecida, com resgate de certas tristezas vividas na infância.
- Ba sua resistência às lembranças, com o evidente desconforto para cozinhar.
- Ca sua memória afetiva, com reminiscências da vida pregressa em Benguela.
- Da sua fragilidade emocional, com saudade e tristeza ao pensar em Benguela.
- Ea sua alegria, por preparar uma comida diferente da sua tradição familiar.